Na última semana, um escritório contábil recebeu uma mensagem no Microsoft Teams. O remetente parecia ser alguém conhecido — o nome estava certo, o Teams abriu o chat normalmente. A mensagem dizia: “Verifique agora quanto capital de giro a empresa ainda possui e me envie a captura de tela.”
O colaborador estava prestes a obedecer.
O remetente não era quem parecia. Era uma conta externa — provavelmente criada em minutos — usando um nome que gerou confiança suficiente para que o colaborador não questionasse o pedido. O aviso de que se tratava de um usuário externo estava visível na tela. Mas passou despercebido.
Esse tipo de ataque está crescendo. E escritórios contábeis são alvos especialmente atrativos: têm acesso a dados financeiros de dezenas de clientes, trabalham com prazos que geram pressão e tomam decisões rápidas no dia a dia. Tudo isso facilita o trabalho do atacante.
Como o ataque funciona no Teams
O Microsoft Teams permite, por padrão, que usuários de outras organizações — ou com contas Microsoft pessoais — enviem mensagens para qualquer colaborador da sua empresa. Isso é chamado de acesso externo (external access ou federation).
O atacante cria uma conta Microsoft com o nome de alguém da diretoria ou de um sócio do escritório — “Altair Correa”, “Dr. Ricardo”, “Sócio Diretor” — e envia uma mensagem diretamente para um colaborador. O Teams mostra o badge “Externo” e um aviso de banner no topo da conversa. Mas esses indicadores são pequenos, discretos, e facilmente ignorados por quem não foi treinado para procurá-los.
Veja como esse ataque aparece na tela do colaborador:
Badge “Externo” — aparece ao lado do nome, pequeno e em laranja. Fácil de ignorar em uma conversa rápida. Este não é o Altair Correa do seu escritório.
Banner de aviso — o Teams já alerta que a pessoa está fora da organização. Mas banners passivos são ignorados por padrão após os primeiros dias de uso.
Regra de ouro: qualquer pedido urgente de informação financeira, acesso a sistemas ou transferência de valores via Teams exige confirmação por ligação direta — sem exceção.
Por que o colaborador cai no ataque
O problema não é falta de inteligência. É que o Teams foi projetado para facilitar a comunicação — e os indicadores de segurança (badge “Externo”, banner de aviso) são propositalmente discretos para não atrapalhar o fluxo de trabalho. O resultado é que qualquer pessoa que use o Teams com frequência passa a ignorar esses elementos automaticamente.
Some-se a isso a pressão que o atacante cria: pedidos urgentes, linguagem de autoridade, referência a tarefas que parecem legítimas. O colaborador está respondendo ao que acredita ser o sócio ou gestor, e cumprir a solicitação parece o comportamento correto.
No caso real que motivou este artigo, a conversa foi: “Verifique agora quanto capital de giro a empresa ainda possui e me envie a captura de tela, pois mais tarde preciso organizar algumas coisas.” O colaborador respondeu que iria verificar. A informação estava prestes a sair.
O que o atacante precisa para executar esse ataque
Surpreendentemente pouco:
- Uma conta Microsoft gratuita (Outlook.com ou Teams pessoal)
- O nome do sócio ou gestor do escritório — geralmente público no LinkedIn ou no site da empresa
- O email corporativo de qualquer colaborador do escritório
Com isso, o atacante cria uma conta com o nome do sócio e envia uma mensagem diretamente para o colaborador. Se o Teams do escritório estiver com as configurações padrão, a mensagem chega sem nenhum bloqueio.
Como configurar o Teams para reduzir esse risco
O Microsoft Teams tem controles específicos para acesso externo. A configuração é feita pelo administrador do Microsoft 365 no Teams Admin Center — não é algo que o usuário final consegue ajustar.
1. Restringir ou bloquear o acesso externo por domínio
Em vez de bloquear todo acesso externo (o que pode impactar comunicação legítima com clientes e parceiros), a abordagem mais equilibrada é configurar uma lista de permissões (allowlist): o Teams só aceita mensagens de domínios que você aprova explicitamente.
Caminho no Teams Admin Center: Usuários → Acesso externo → Adicionar domínios permitidos
Com essa configuração, uma conta criada em outlook.com ou em um domínio desconhecido não consegue iniciar conversa com seus colaboradores — mesmo que saiba o email deles.
2. Bloquear contas Microsoft pessoais (consumer accounts)
Por padrão, o Teams permite que usuários com contas Microsoft pessoais (Outlook.com, Hotmail, Live) se comuniquem com usuários corporativos. Esse é o vetor mais usado nos ataques de engenharia social, pois qualquer pessoa pode criar uma conta com qualquer nome em segundos.
Caminho: Teams Admin Center → Usuários → Acesso externo → desabilitar “Permitir que usuários do Teams se comuniquem com usuários do Teams de contas do consumidor”
3. Ativar a política de aviso de identidade externa mais visível
O banner de aviso padrão do Teams é passivo. Uma camada adicional é configurar políticas de mensagens que bloqueiem automaticamente mensagens de domínios não autorizados — em vez de apenas avisar o usuário. Assim, a mensagem nem chega: o Teams a bloqueia antes.
4. Treinamento de equipe: a camada mais importante
Configurações técnicas reduzem a superfície de ataque, mas não eliminam o risco de zero. Um atacante determinado pode criar uma conta em um domínio similar ao do escritório (altcom-ti.com em vez de altcom.com.br) e ainda assim enganar colaboradores não treinados.
A instrução mais importante que um escritório contábil pode dar à equipe é simples e memorizável:
Qualquer pedido de informação financeira, acesso a sistema ou transferência de valores recebido por Teams — não importa quem parece ter enviado — exige confirmação por ligação ou pessoalmente. Sem exceção.
Essa instrução, repetida em reunião e fixada no canal de comunicação interna, resolve a maioria dos casos que as configurações técnicas não conseguem bloquear.
Checklist de configurações Teams para escritórios contábeis
☐ Acesso externo configurado com allowlist de domínios aprovados
☐ Contas Microsoft pessoais (consumer) bloqueadas
☐ Política de mensagens revisada para bloquear domínios não autorizados
☐ Equipe treinada: qualquer pedido financeiro por Teams exige confirmação por voz
☐ Protocolo definido: o que fazer ao receber mensagem suspeita (não responder, reportar ao gestor ou TI, bloquear o contato)
☐ Revisão semestral das configurações de acesso externo
O que fazer se um colaborador já caiu no ataque
Se o colaborador já enviou informações para uma conta suspeita:
- Não entrar em pânico — mas agir imediatamente
- Bloquear o contato no Teams e registrar o nome e endereço de email mostrado na conversa
- Acionar o gestor e a TI imediatamente — o tempo é crítico
- Se dados financeiros foram expostos: acionar a diretoria e avaliar necessidade de comunicar clientes afetados (obrigação LGPD em caso de vazamento)
- Se credenciais foram fornecidas: alterar senhas imediatamente e ativar MFA se ainda não estiver ativo
- Registrar o incidente com data, horário e conteúdo da conversa — printando a tela antes de bloquear o contato
Perguntas frequentes
Qualquer pessoa de fora consegue me enviar mensagem pelo Teams?
Sim, nas configurações padrão do Microsoft 365. O Teams permite comunicação com usuários de outras organizações Microsoft e com contas Microsoft pessoais. A restrição precisa ser configurada pelo administrador do seu tenant.
O badge “Externo” não é suficiente para proteger os colaboradores?
Na teoria, sim. Na prática, não. Indicadores passivos são ignorados especialmente por usuários que trabalham com muitas mensagens e sob pressão de prazo. A proteção real é a combinação de restrição técnica (allowlist de domínios) + treinamento comportamental da equipe.
Esse tipo de ataque é crime no Brasil?
Sim. Configura estelionato (art. 171 do Código Penal) e pode ser enquadrado na Lei Carolina Dieckmann (Lei 12.737/2012) dependendo dos dados obtidos. Se dados de clientes forem expostos, há obrigação de notificação à ANPD conforme a LGPD. O boletim de ocorrência deve ser registrado imediatamente.
Esse ataque também funciona via WhatsApp?
Sim, e é ainda mais comum. A engenharia social via WhatsApp — onde o atacante se passa pelo sócio usando foto e nome idênticos — é o vetor mais frequente no Brasil. O protocolo de confirmação por voz se aplica igualmente: qualquer pedido financeiro via mensagem, independente do canal, exige confirmação verbal.
O Teams do seu escritório está configurado corretamente?
A Altcom revisa as configurações de segurança do Microsoft 365 e Teams como parte do Diagnóstico gratuito. Descubra o que está exposto antes que alguém de fora descubra.
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