Quando falamos em segurança de TI para escritório contábil, a conversa quase sempre vai direto para firewall, antivírus, backup, VPN. Ninguém pensa na impressora no escritório contábil. E é exatamente por isso que ela costuma ser o ponto mais negligenciado de todo o ambiente. É um equipamento que fica ligado o dia inteiro, conectado à rede, processando — e muitas vezes armazenando — exatamente o tipo de documento que o escritório contábil mais precisa proteger: declaração de Imposto de Renda, contracheque, guia com CPF e CNPJ, balanço de cliente.
A multifuncional corporativa moderna não é só uma impressora. É um computador completo, com processador, memória e, na maioria dos modelos de médio e grande porte, um HD interno. Esse HD guarda uma cópia de tudo que passou pela máquina: cada digitalização, cada trabalho de impressão em fila, às vezes por semanas ou meses — dependendo de uma configuração de fábrica que praticamente ninguém revisa depois da instalação.
Este post existe para abrir os olhos do contador para um risco que a maioria nunca considerou, e para separar o que realmente importa configurar do que é só custo desnecessário.
Por que a impressora no escritório contábil é um risco de segurança que ninguém vê
Uma multifuncional de rede, ligada ao mesmo Wi-Fi ou cabo de rede que o resto do escritório, é um dispositivo com sistema operacional próprio, interface de gestão acessível via navegador (muitas vezes com senha padrão de fábrica nunca trocada), e — no caso de modelos com HD interno — um repositório de documentos digitalizados e impressos que fica ali, sem backup, sem controle de acesso dedicado, e sem que ninguém do escritório saiba que aquele dado existe fisicamente guardado na máquina.
O caso mais comum de exposição não é nem um ataque sofisticado: é a interface de gestão da impressora, acessível via navegador dentro da rede interna (ou pior, exposta à internet por engano), com a senha padrão que veio de fábrica (“admin/admin”, por exemplo) nunca alterada. Qualquer pessoa com acesso à rede — inclusive um visitante conectado ao Wi-Fi errado — pode acessar essa interface e, dependendo do modelo, visualizar histórico de trabalhos, baixar digitalizações guardadas, ou reconfigurar o equipamento.
Some a isso o fato de que impressora corporativa recebe pouca ou nenhuma atenção de atualização de firmware — diferente do computador, que tem antivírus e atualização automática monitorados, a impressora costuma ficar anos sem revisão de segurança, funcionando silenciosamente na rede como um ponto cego.
Impressora USB vs impressora de rede: o que faz sentido para cada tamanho de escritório
Impressora conectada via USB direto a um único computador, sem entrar na rede, é mais simples e, em compensação, mais limitada: só quem está naquele computador específico consegue imprimir, o que é impraticável para um escritório com mais de duas ou três pessoas competindo pelo mesmo equipamento. Para escritório contábil muito pequeno, com poucos usuários e baixo volume de impressão, pode ser suficiente e reduz a superfície de risco (já que não fica exposta na rede).
Impressora de rede (seja via cabo ou Wi-Fi) resolve o problema de escala: qualquer estação autorizada consegue enviar trabalho de impressão sem depender de outro computador ligado. Mas isso exige que a segurança do próprio dispositivo seja tratada com o mesmo cuidado de qualquer outro equipamento conectado à rede. Na prática, isso significa senha de administração alterada, firmware atualizado e, idealmente, segmentação em uma VLAN própria para impressoras, separada da rede onde ficam as estações que rodam o sistema contábil.
Para a maioria dos escritórios contábeis do porte que atendemos — dez a quarenta estações — a impressora de rede é praticamente inevitável pela demanda de volume, o que torna a configuração de segurança do equipamento não opcional, e sim parte da mesma checklist que se aplica a servidor e estação de trabalho.
O que fica armazenado na multifuncional (e como apagar antes de devolver ou vender)
Multifuncionais de médio e grande porte, usadas para digitalizar documento em volume (comum em escritório contábil, que digitaliza nota fiscal, comprovante, documento de cliente o tempo todo), quase sempre têm um HD interno onde ficam armazenadas cópias temporárias — e às vezes não tão temporárias — dos documentos processados. Dependendo da configuração de fábrica, esse armazenamento pode reter arquivo por dias, semanas, ou até indefinidamente, até que o disco seja sobrescrito ou apagado manualmente.
O risco mais concreto aparece no fim do ciclo de vida do equipamento: quando o contrato de locação termina e a impressora é devolvida para o fornecedor, ou quando o escritório vende o equipamento usado, ninguém pensa em apagar o conteúdo do HD interno antes de entregar a máquina. Isso significa que documento fiscal, contracheque e declaração de IR de clientes podem estar literalmente saindo do escritório dentro do equipamento, acessíveis a quem tiver conhecimento técnico para extrair o disco.
A prática correta é, antes de devolver ou vender qualquer multifuncional, executar o procedimento de limpeza de dados do fabricante (a maioria dos modelos corporativos tem uma opção de “apagamento seguro” ou “reset de fábrica com sobrescrita de disco” no próprio menu do equipamento) e, quando possível, solicitar ao fornecedor uma confirmação por escrito de que os dados foram removidos antes da devolução. Esse procedimento deveria ser um item padrão no processo de desligamento de qualquer equipamento — hoje, na maioria dos escritórios, simplesmente não existe.
Gestão centralizada de impressão: como reduzir desperdício e chamados de suporte
Sem gestão centralizada, cada usuário instala driver de impressora do seu jeito, imprime o que quiser sem controle, e quando algo trava (fila de impressão travada, driver desatualizado, impressora sem toner) o chamado de suporte cai direto na mesa de quem cuida de TI, sem nenhuma visibilidade prévia do problema.
Um sistema de gestão centralizada de impressão permite três coisas que fazem diferença direta no dia a dia. Pode ser uma solução dedicada ou recursos nativos do Windows Server, ou ainda soluções em nuvem de gerenciamento de impressão:
- Monitorar nível de toner e status de todas as impressoras em um painel só, trocando o suprimento antes de faltar, em vez de descobrir no meio de uma impressão urgente.
- Definir cota e regra de impressão por usuário ou setor — por exemplo, impressão colorida só mediante autorização, ou limite de páginas por mês. Isso costuma reduzir bastante o desperdício em escritórios onde ninguém nunca questionou o volume impresso.
- Centralizar driver e configuração, reduzindo drasticamente o número de chamados de suporte relacionados a “não consigo imprimir”.
Escritórios que já revisaram a infraestrutura de TI para evitar lentidão e falha de forma mais ampla costumam encontrar, nessa mesma revisão, oportunidade de reduzir custo de impressão que ninguém tinha calculado antes — o volume de páginas desperdiçadas em um escritório contábil sem controle costuma surpreender quando é medido pela primeira vez.
Contrato de manutenção vs locação de impressora: o que costuma sair mais barato
A decisão entre comprar equipamento com contrato de manutenção avulso ou locar (com manutenção e suprimento inclusos no contrato mensal) depende do volume de impressão e do perfil de uso do escritório, mas existem alguns padrões que ajudam a decidir.
Comprar o equipamento e contratar manutenção à parte costuma sair mais barato no longo prazo para escritórios com volume de impressão baixo e previsível, porque não há margem de locadora embutida no custo mensal. O contraponto é que o escritório assume o risco de obsolescência do equipamento e precisa negociar manutenção e suprimento separadamente, o que exige mais gestão interna.
Locação com contrato que inclui manutenção e suprimento (o modelo de pagamento por página impressa, comum no mercado) costuma fazer mais sentido para escritórios com volume alto ou variável, porque o custo por página já embute manutenção preventiva, troca de peça e suprimento, sem surpresa de gasto extra quando o equipamento apresenta problema. Também tira do escritório a responsabilidade de gerenciar o ciclo de vida do equipamento — quando o contrato termina, a locadora recolhe e substitui, incluindo (se bem negociado no contrato) o procedimento de limpeza segura do HD interno mencionado antes.
Na prática, recomendamos calcular o custo real por página nos dois modelos, considerando não só o preço do toner, mas o tempo de suporte interno gasto com problema de impressora — que corresponde a um custo real, mesmo que o escritório não o registre como “custo de impressão” na hora de comparar as opções.
Conclusão
A impressora no escritório contábil é o elo esquecido da segurança de TI, como já alerta a cartilha de segurança do CERT.br sobre dispositivos de rede mal configurados. O custo de ignorar isso não aparece até o dia em que um equipamento é devolvido com documento fiscal de cliente ainda guardado no HD interno, ou quando um visitante mal-intencionado descobre a interface de gestão com senha padrão de fábrica. Tratar a impressora com o mesmo rigor de segurança que se dedica a servidor e estação de trabalho é simples de implementar e resolve um risco que a maioria dos escritórios nem sabia que existia — e vale revisar junto com outros equipamentos do parque, como já discutimos em quando trocar os computadores do escritório contábil.
Perguntas frequentes
Toda impressora tem HD interno que armazena documento?
Não. Impressoras simples, de uso doméstico ou de baixo volume, normalmente não têm armazenamento persistente. O risco é mais relevante em multifuncionais corporativas de médio e grande porte, usadas para digitalização em volume.
Como saber se minha impressora atual tem esse risco?
Verificando a ficha técnica do modelo (presença de HD ou memória flash de armazenamento) ou consultando o fornecedor/fabricante diretamente. Equipamentos alugados costumam ter essa informação no contrato original.
Trocar a senha padrão da impressora já resolve o problema?
É o primeiro passo e resolve boa parte do risco de acesso não autorizado à interface de gestão, mas não substitui segmentação de rede nem o procedimento de limpeza de dados antes de descartar o equipamento.
Gestão centralizada de impressão vale a pena para escritório pequeno?
Depende do volume. Para escritórios muito pequenos, com poucas impressoras, o ganho é menor, mas mesmo assim vale revisar senha padrão e segmentação de rede, que são medidas de segurança básicas independentes do tamanho do escritório.
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